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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Pétalas e espinhos no caminho de Gisberta

O mergulho ao poço das lágrimas: transexual Gisberta, o expurgo da vida o mito e a melodia.

Há muito tempo venho me programando para publicar mais alguma coisa aqui. Gosto de escrever sem pressa, sem obrigação e o blog me proporciona isso, mas não me sinto menos culpado por esta “desobrigação” mais ou menos anuída pelo meu subconsciente.

clip_image002Bom, escutei e li algumas vezes que uma oração funciona ou que uma prece surte efeito não por misteriosos poderes sobrenaturais, não por serem divinas, mas porque cada sílaba pronunciada tem uma vibração específica, uma tonicidade, uma espécie de assinatura invisível, espectral.

As palavras não precisam ter sentido necessariamente, mas o som produzido, o ruído mesmo, tem o poder de gerar ondas que são captadas pelo cérebro, como uma chave física que liberasse determinado compartimento, que fizesse com que engrenagens curadoras tivessem suas roldanas psíquicas azeitadas. 

Acredito nisso, sobretudo quando só nos atemos às questões físicas mesmo, mas não poderia me furtar de crer que orações –à moda tradicional-- funcionam pois simplesmente são ouvidas. Estou certo de que há quem as ouça, sempre! E sílabas formam palavras e palavras formam frases, mantras, orações... 

clip_image004 Eu fui gravemente atingido e tocado pelo poder das ondas sonoras, fui ferido, caí, levantei-me, chorei e me deixei ser agredido muitas vezes por uma música que escutei outro dia, um som coroado, letra e música pela etérea, nobilíssima e quase sobrenatural voz de Maria Bethânia. 

A balada de Gisberta”, do cantor e autor português Pedro Abrunhosa, é uma dessas composições geniais que, de quando em vez, aparecem para nos arrebatar e nos transportar para locais que não sabemos identificar, mas que deixam rastros e pegadas fortes por essa estrada sem paradeiro no painel de nossas emoções. 

Gisberta, nascida Gisberto Salce Júnior, em São Paulo, foi um transexual brasileiro que chegou ao Porto, Portugal, nos idos de 1990, com o sonho comum às centenas de travestis e transexuais brasileiros de, alguma forma, brilhar em terras estrangeiras e amealhar alguns vinténs. 


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Gis, como também era conhecida –segundo apurei em alguns jornais portugueses, blogs e na própria mídia brasileira— conseguiu sim brilhar nos primeiros anos em boates e cabarés na Cidade do Porto e, talvez, também se aventurando por outros rincões europeus como Paris, na França. 

O brilho de Gis, lamentavelmente, foi-se dissipando, desvanecendo-se à medida que ela ia-se envolvendo cada vez mais com o consumo de drogas pesadas. Era, pois, um cometa de brilho intenso e fugaz. Foi dama de beleza ímpar, uma criatura de dúlcida e feminina conduta, contam alguns. 


A luz emanada por Gis é a mesma luz que brota de tantas outras meninas, não nascidas fêmeas em carne, mas brotadas dos botões de rosas brancas, como a enfeitar seus caminhos de lágrimas, luta e sangue. 


Gisberta e as outras tantas, nesta ou na outra margem do atlântico de lusa-língua dão em holocausto a própria vida pela simples razão de serem diferentes. A dor da diferença é imensurável... 
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Ela que houvera brilhado e “matado com sedas”, conforme diz Abrunhosa, padeceu sob às mãos dos mais sádicos algozes num episódio digno das fantasias policialescas das mentes mais férteis de escritores mundo afora. 


Debilitada pela AIDS e por doenças oportunistas como tuberculose e hepatite, Gisberta, que do brilho das lâmpadas coloridas de neon dos cabarés portugueses foi o foco, agora à escuridão duma construção inacabada padece. 


E ali vivia e ali era insultada, de forma sistemática, por uma malta de guris e adolescentes, inimputáveis à lei, mas que traziam em si a monstruosidade dos cérebros mais insanos. 
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A menina que vivia nas trevas da vida e na escuridão de um ambiente qualquer de sua toca de cimento e aço inacabada e insalubre fora raptada, agredida física e psicologicamente, humilhada e seviciada durante dias. 
Foram 13 insanos, entre 12 e 15 anos, conforme apurado em publicações da época, que apagaram a última centelha, tal qual a luz de um pirilampo, dos olhos de Gisberta em fevereiro de 2006. 


Como se não bastasse o horror propiciado por tais enfermos que, ironicamente eram internos de uma instituição que abrigava menores desvalidos ligada à Igreja Católica denominada Oficinas São José, estaria por vir o desfecho tenebroso: como a julgaram morta, após as sessões de torturas, atiraram-na, ainda viva, a um poço da construção em que residia. Gisberta morreu afogada. 


Eu já me remoí refletindo sobre este caso. O que terá pensado Gisberta? Em que momento teria perdido a lucidez antes da morte? Pensou na mãe, pensou na pátria distante? Deve ter-se lembrado dos momentos que antecederam sua saída do Brasil ou, àqueles momentos em que ela mesma era a luz de si própria ou irradiava seu brilho a outrem. Acho que se viu ao espelho antes de cruzar o atlântico, orgulhosa e cheia de anseios. 


Gisberta, a quem confiou seu coração? Lembra-se das vibrações da voz materna dizendo “tenha cuidado, meu filho?”. Quiçá seu último rasgo de consciência tenha-se dado quando estava submersa às águas semi-turvas daquele poço. E de uma mirada de dentro para fora, naquele instante mágico pré-morte, tivesse recobrado a consciência e fitado os seus carrascos. 


Eram águas turvas Gisberta, talvez lágrimas suas que se acumularam no poço ao longo de sua estada por lá e escorriam enquanto você chorava sozinha e ninguém escutava seus soluços.

Você não podia ver suas lágrimas encharcando o chão e enchendo seu túmulo que já ia se construindo úmido e lodoso. Era escuro demais, era tarde demais. 


À luz da justiça (injustiça) lusitana, Gisberta morreu afogada e não havia elementos que corroborassem a culpabilidade daqueles meninos puros das Oficinas de São José. Perseguida, assediada, humilhada, seviciada física e sexualmente, aviltada e morta.


clip_image012Eram só crianças, eram os pupilos de São José, e, afinal de contas, Gisberta era transexual, soropositiva, moradora de rua, prostituta e imigrante. Uma cadela sem dono, sem família, sem ninguém! 


E as Gisbertas de cá...
 
Eu, por razões diversas, fiquei comovidíssimo com esta estória toda e a pedido de uma amiga muito amada, a jornalista Karina Zambrana, resolvi escrever sobre o tema, mas confesso que tive um bocado de angústia, de tristeza, uma sensação inexplicável de pequenez e revolta diante de tanto que somos submetidos dia a dia.


Eu morei muitos anos da minha vida em pensões, sou originário do interior e por razões circunstanciais vivi anos a fio em pensionatos e pensões para que pudesse cumprir meus estudos até findar-se a graduação. 


Lembro-me especialmente de uma pensão em Aracaju, capital do estado de Sergipe, onde vivi por dois anos. Era um prédio muito antigo, à moda art-decó do início a meados do século passado, uma construção singular à beira da foz do Rio Sergipe. 


Pois bem, chamava-se Rua da Frente o logradouro e a construção onde eu vivia fora apelidada de Castelinho por nós, seus habitantes. A Rua da Frente é uma conhecida zona do meretrício aracajuano. 



clip_image014Eu me recolhia sempre muito tarde e meu quarto ficava no pavimento superior. Para mim era a própria torre do castelo! Num sábado, lembro-me num fechar não muito rente de olhos, daqueles gritos tão logo repousei minha cabeça em meu travesseiro. 


Tive medo, eram gritos de horror e eu não me atrevi a por cabeça fora da janela. Não queria incomodar os meus colegas do primeiro pavimento. Afinal, o chão era um tabuado de madeira ordinária, puída e bastante barulhento. 


Os gritos não pararam e fui averiguar. Cena dantesca: uma criatura, que jamais pode ser classificado de homem, havia se aproximado de um travesti e dissimulando um acordo qualquer com aquela pobre alma e o agarrou pelos braços, prendeu-o à janela de seu veículo e o arrastou por alguns metros pelo asfalto. 


Os gritos de dor até hoje são recordados, os gritos de sua colega de labuta também não se me escapam à memória. Um horror, meu Deus! No dia seguinte tive notícia que esta pessoa estava gravemente ferida num hospital. Lembro-me de ter chamado o número da polícia, mas de nada adiantou. Choros, soluços, gritarias e o barulho do pneu cantando no asfalto. Não sei se morreu, não sei e tive medo de saber. 


Aqui em Salvador— segundo o Grupo Gay da Bahia, este é o estado onde há o maior número de mortes violentas contra homossexuais, majoritariamente travestis e profissionais do sexo—eu vivo no centro e, à noite, é muito fácil identificar dezenas de Gisbertas à rua. 


Dia chegará, assim espero, em que travestis e transexuais não necessitarão vender a própria carne para pagar o pão. Até lá, uma larga estória de intolerância, crimes, desrespeito e a anuência tácita e cínica do Estado nos golpearão a cara. Lágrimas e soluços de centenas de Gisbertas ficarão mudos e seus verdugos permanecerão impunes. 


Eu não quero entrar no mérito da escolha pessoal de cada qual, não irei fazer juízo de valor sobre prostituição e escolhas íntimas. Cada um é responsável por sua própria caminhada e decisões num Estado democrático e constitucional. 


Eu tenho todo o direito de não aceitar, de não gostar e de no foro da minha privacidade ser intolerante ou esbravejar aos céus que não simpatizo ou desgosto deste ou daquele segmento, mas tenho a obrigação legal, moral e civilizada de respeitar qualquer um que cruze o meu caminho. 


Quantas mães mais se privarão de escutar as vozes de suas filhas e filhos cujas vidas foram ceifadas pela barbaridade de indivíduos doentes incitados pela moral torpe e escabrosa incitada por pseudo-líderes religiosos? Quantos bons dias, boas noites, e adeuses jamais serão pronunciados por bocas desvalidas de sangue, brancas e já mortas? 

clip_image016Gisberta, a você e a todas as outras e outros que não mais estão por aqui no orbe terrestre, àqueles vivos, não importando se sejam travestis,transexuais, gays ou lésbicas que algum dia deixaram cair lágrimas pelo caminho, eu vos desejo rosas brancas e perfumadas e que o som provocado pela leitura dessas palavras vibre e faça ressoar o melhor intento de felicidades neste ou noutros mundos.

Sócrates Bastos
Jornalista
Salvador, Brasil
 
Notas sobre as imagens do texto:
1. Credito todas as fotografias de Gisberta à ONG Portugal Gay e ao site PortugalGay. pt
2. A penúltima fotografia do texto (travesti de costas) é de autoria da Revista Época
3. As ilustrações do início do texto (espectro sonoro e notas musicais) foram copiadas na internet cujos autores são desconhecidos.
4. A foto do último parágrafo (rosas brancas) não está creditada na internet, mas a adquiri no blog Vivenda das Flores