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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Estudando inglês na África do Sul

Inglês e pinguins com fish and chips.
Em Cape Town, na África do Sul, aprende-se de tudo, até inglês!
 
 
Antes de viajar para a África do Sul para aprender inglês eu já tinha um razoável conhecimento sobre a situação sociopolítica daquele país, portanto não me surpreendi com o que vi: Cape Town (Cidade do Cabo) é uma cidade moderna, limpa e com um ar extremamente europeu. Surpresa para vocês? Pois é, Cape Town, a cidade do arco-íris, não por ser uma cidade gay, mas por ser a cidade de todas as cores e etnias. 

É a terclip_image004ra mãe da África do Sul, foi lá onde o país nasceu e é a cidade mais visitada da nação. Holandeses, ingleses, xhosas, zulus, muçulmanos e indianos formam o grosso desse caldeirão étnico fascinante e peculiarmente pedagógico.
Em Cape Town aprende-se de tudo só em contemplá-la, é escandalosamente linda e bem cuidada. Os capetonians são pessoas abertas e amistosas e adoram ajudar estrangeiros. A cidade está coalhada de jovens que escolheram a Pátria do Arco-Íris como opção mais barata e muito mais conveniente para aprender inglês.
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Ah, Cape Town é sim uma cidade gay friendly e o casamento homossexual é legalizado e é possível ver casais gays de mãos dadas por toda a parte. Se você for intolerante ou homofóbico, nem passe por perto! 

Por que escolhi a África do Sul para aprender inglês?
Sempre há um desinformado, para não dizer ignorante, que me perguntava o porquê da escolha, e eu sempre perguntava em troca: Por que não?
A ignorância enjaula o homem! Cape Town é mais limpa e sofisticada do que a maioria das cidades brasileiras, SEM DÚVIDA ALGUMA. 

E especificamente sobre o inglês falado por lá: British a lot! É falado à moda britânica com especificidades do país, naturalmente. É como o português falado em África: diferente do lusitano, mas semelhante no que diz respeito à melodia e vocabulário. É válido lembrar que Cape Town, sobretudo as zonas onde se localizam as áreas turísticas e históricas, é área de confluência étnico-linguística, ou seja, você escutará inglês, africâner (antigamente conhecido como holandês do Cabo) e Xhosa (pronuncia-se Kossa, com um estalo sublingual na primeira sílaba). Escuta-se também árabe, zulu e híndi. 

Essas línguas não são faladas por hordas de turistas loucos pela brisa da cidade, mas sim pelos nativos. Por questões que não me caberiam explicar aqui, a África do Sul, sobretudo a Província do Cabo Ocidental, foi povoada por grupos humanos provenientes do sudeste asiático muçulmano, Índia, Paquistão, Sri Lanka e a atual Indonésia, além dos colonizadores europeus, ingleses e holandeses. Grosso Modo, para povoar e garantir suas posses Reino Unido e Países Baixos transladaram para a África do Sul populações provenientes de outras colônias: o Reino Unido levou indianos e Holanda malaios e javaneses. 

Caso você tenha resistência à pronúncia britânica, vou logo avisando, seu lugar não é África do Sul. Além de não gostarem alguns capetonians fingem que não entendem quando escutam a pronúncia americana. Outra coisa, caso não queira escutar outro idioma na televisão ou escutá-lo na rua, também desista. A pluralidade linguística é a marca de Cape Town. 

Fala-se algum idioma local ou dialeto?
São 11 os idiomas oficialmente falados na África do Sul. Em Cape Town especialmente, além dos idiomas minoritários e só falados por comunidades nacionais, como o Híndi e o Árabe, por exemplo, falam-se três idiomas: Inglês, Africâner e Xhosa. 

Não estranhe os negros falarem em Xhosa entre si enquanto interagem consigo em inglês, em alguma loja, por exemplo, tampouco se assuste com o sotaque quase incompreensível no primeiro minuto de conversação. Grande parte dos negros aprende inglês depois da primeira infância e só o usam como segunda língua. Você pode estar pensando agora: ai meu Deus, vai ser difícil aprender! Ledo engano! É mais fácil ainda porque todo mundo terá paciência com você. 

clip_image008O segundo detalhe importante e ao mesmo tempo vexatório, mas vale ser registrado porque é reflexo do que todo mundo já sabe: os estudantes ficam em áreas britânicas, demarcadas pelo antigo passado segregacionista empreendido pelo Apartheid. Ou seja, dificilmente um estudante terá contato com alguém que não domine o idioma. Uma coisa interessante a ser mencionada é que o trânsito por lá é à moda inglesa, ou seja, invertido para nós. 

Custo x benefício!
Uma coisa que precisa ficar clara para quem quer estudar inglês ou qualquer idioma no exterior: os pacotes com meia pensão inclusa de quatro semanas são geralmente similares, seja na África do Sul, Nova Zelândia ou Canadá. Variam entre U$$ 1.000 e 1.300. O que deixa a África do Sul irresistível são a cotação do Rande frente ao Real e as facilidades de entrada no país, já que brasileiros não precisam de visto para permanecerem por até três meses. 

Um Rande vale ¼ do valor de nossa moeda e no geral os preços são mais baixos que os praticados por aqui e a incidência tributária é muito menor. Menos impostos, preços mais baixos e estudantes brazucas muito felizes. Essa equação, somada às paisagens únicas e a beleza harmoniosa de Cape Town, tornaram-na um destino considerável para estudantes de inglês do Brasil e de outra dezena de países. 

Segurança para escolher o programa na Roda Mundo
Eu escolhi a Roda Mundo porque queria me sentir seguro com esses trâmites burocráticos e isso me deixou numa situação cômoda. Eles providenciaram tudo e durante todo o período em que permaneci na África do Sul fui monitorado, quase que diariamente, pela proprietária da empresa, Roberta e pelo seu colega Lucas. Não me canso de dizer a todos os meus amigos que foi a decisão mais sábia que tomei. A priori eu havia escolhido um programa de um mês, mas conforme fui sentindo o progresso no aprendizado do idioma eu me empolguei e comprei mais seis semanas e eles me apoiaram totalmente à distância. 

A Roda literalmente cumpriu seu papel de agente: providenciaram desde os documentos de viagem e até faziam remessas de dinheiro para mim quando a minha grana ia-se embora. Eu sinto muito por não ter conhecido a Roberta pessoalmente. Isso mesmo, toda a negociação foi feita à distância via telefone e internet e, assim mesmo, o atendimento foi o mais profissional e impecável quanto o possível. 

A escola e minha host house
Quando procurei a Roda, eu não sabia ao certo o que queria e apresentei as minhas condições à empresa e eles me ofereceram a Intelink English School, em Sea Point, zona badaladíssima de Cape Town. A escola não é grande, mas isso para mim converteu-se num ponto a favor já que o tratamento recebido por cada aluno é bem diferenciado e atende às realidades distintas dos estudantes. Nos quase dois meses e meio que permaneci por lá, a escola era meu porto seguro, uma referência para tudo. Que delícia estudar naquela região à beira do gélido atlântico de Sea Point. 

Eu jamais esquecerei a convivência com colegas da Alemanha, Suíça, Arábia Saudita, França, Angola...
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Eu decidi, assim como já tinha feito noutra experiência quando aprendi espanhol, que não há lugar melhor para pôr em prática o que o que foi ensinado na escola do que uma casa de família. Há quem não goste da ideia, mas não há como discordar que numa casa de família o aprendizado é potencializado e os resultados mais compensadores. Eu até me arrisco a dizer que a experiência com minha host family teve um peso qualitativo tão ou mais importante do que a escola. É no ambiente doméstico onde as coisas do dia a dia são discutidas, comentadas e seu vocabulário vai inflando, inflando... 

Eu tive muita sorte por ter sido hospedado por uma simpática senhora e seu pequeno poodle. As tardes frias do inverno austral africano ficavam tão aconchegantes com sua conversa fluida regadas por xícaras de chá que muitas vezes eu nem tinha vontade sair de casa. Aprendi bastante escutando e falando errado! Saudades de você mom, saudade Maureen! 

Fish and Chips
Cape Town é o paraíso para ictiófagos como eu (gente doida que só se alimenta de peixe) e é muito fácil e baratíssimo comer frutos do mar por lá. Restaurantes e barraquinhas que vendem o famoso fish and chips são como as baianas de acarajé aqui em Salvador (pois é, sou baiano) e eu tratei de aproveitar essa benesse gastronômica a enésima potência. 

Que delícia! Eu comia todos os dias no almoço um filé enorme de peixe grelhado, batatas fritas ou salada, arroz temperado e uma coca cola e pagava só 47 Randes pela refeição, mais ou menos R$ 11,80. Gostou? Eu adorei tanto que engordei quase quatro quilos! 

À África do Sul não é Somália, Etiópia ou Congo...
Minhas senhoras e meus senhores, a África do Sul é um país no extremo sul de um continente chamado África. Será difícil entender isso? A África é uma colcha de retalhos geopolítica com mais de 50 países. 

A África do Sul é o país mais rico de todo o continente africano, isso mesmo, é um país rico! Mais rico que o Egito, Marrocos, Argélia, Tunísia ou Nigéria. Eu já tive que escutar absurdos de gente supostamente bem educada, algo do tipo: “você viu algum leão na rua?” “Lá é uma pobreza miserável, não é ?”, “ E aquela gente magra, você viu?” Sem comentários! 

Além de Cape Town, cidades como Durban, Pretória, e Johanesburgo são referências quando questões atreladas às grandes metrópoles são levantadas. Johanesburgo, por exemplo, é uma megacidade à moda das maiores capitais do nosso continente. 

Foi na África do Sul, mais precisamente em Cape Town, onde foi realizado o primeiro transplante de coração do mundo. A propósito, o país é referência em atendimento médico e recebe visitantes de toda a África em busca de suas clínicas e centros hospitalares de boa qualidade. É um país industrializado, mas que, assim como o Brasil, sofre das mazelas consequentes do abismo social que separa os ricos dos pobres. 

Outra besteira enorme, essa dá vontade gritar: o meu sotaque, ou o sotaque de quem fica por curto tempo será sempre estrangeiro, portanto pouco importa se eu tenha estudado na Austrália, Inglaterra, Canadá ou Estados Unidos, falarei sempre com sotaque estrangeiro. Não tem como apagar o que se é! 

Pinguins, esquilos e saudades
clip_image012Cape Town é conhecida por suas ventanias à beira do mar e pelas baixas temperaturas no inverno. No auge da estação, em junho e julho, a temperatura pode eventualmente ficar negativa e são muitos os registros de neve no topo da Table Mountain, símbolo da cidade. A cidade fica na ponta mais meridional do continente africano, divide o mar, simbolicamente entre os oceanos Índico e Atlântico e, para surpresa de muitos, é lar de algumas espécies de pinguins.
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Nos meus últimos dias em Cape Town eu agradecia a Deus por estar, sem dúvida nenhuma, naqueles dias, mais perto do céu. Não naquele céu bíblico e modorrento, mas no céu dos poetas, dos descobridores, dos historiadores e dos artistas. 

É naquela cidade, pedaço de céu, que o os oceanos Atlântico e Índico se encontram, onde pessoas de todas as cores e credos estão irmanadas. Foi lá que eu vi pela primeira vez esquilos andando em parques públicos e foi lá também que do topo da Table Mountain e vi Deus através de tanta beleza e o agradeci. Thanks God!
Sócrates Bastos, jornalista, Salvador/BA.
socratesbastos@yahoo.com.br
Esteve em Cape Town entre setembro e novembro de 2010